Os impactos da localização da nova rodoviária de Indaiatuba

Texto de Mônica Mitie Kanematsu Wolf
 Arquiteta urbanista
Maio de 2017.

Todos nós, que vivemos em Indaiatuba, sabemos que há a previsão de mudança da rodoviária para um novo edifício e local na cidade. O projeto, desenvolvido por equipe própria da prefeitura, mais especificamente da Secretaria de Planejamento Urbano e Engenharia, teve a Ordem de Serviço (OS) emitida em março/2016 e a obra iniciou, com previsão de entrega para março/2017.

A empresa vencedora da licitação para execução da obra foi a Tutida Construção e Manutenção Ltda., pelo valor dede R$9.398.767,42. Ainda segundo informações do site da prefeitura, o novo edifício terá pouco mais de 4.000m², com 15 baias para ônibus intermunicipais, um terminal urbano  com baias para 6 ônibus, espaço para comércios e tudo mais que um prédio público com muito movimento precisa ter: sanitários, guichê de informações, telefones públicos, depósitos, lixeiras, estacionamento. Mas não há detalhamento mínimo do projeto disponível no site da prefeitura,  na página da Secretaria responsável e nem em mídias locais; também não são apresentadas justificativas técnicas e econômicas para a mudança, apenas que “Será uma rodoviária moderna e de fácil acesso, tendo em vista que fica próximo à rodovia”.

Considerando assim apenas as poucas informações e dados disponíveis e a partir de ponto de vista urbanístico podemos fazer um exercício de análise contrapondo a localização da rodoviária atual e a proposta de mudança.

Hoje, os ônibus intermunicipais chegam à cidade, adentrando-a pela Av. Visconde de Indaiatuba até o fim, seguem pela Av. Presidente Vargas e vão até o Terminal Rodoviário, no entroncamento com a Rua 24 de maio. Neste pequeno percurso urbano, é possível o viajante fazer algumas importantes paradas: no entroncamento da Av. Visconde com a Av. Conceição, próximo ao Ginásio de Esportes, no entroncamento com a Av. dos Trabalhadores que segue até a Av. Presidente Kennedy – eixos de grande importância que compõem o sistema viário municipal, utilizados para acessar toda a região Norte de Indaiatuba; e na Av. Presidente Vargas – última parada antes de chegar ao Terminal, outra importante via, utilizada para acessar o centro da cidade e que segue em direção à região Sul.

Ao chegar ao Terminal Rodoviário, localizado no Centro, o passageiro tem a opção de seguir a pé e acessar os principais estabelecimentos comerciais e de serviços da cidade, com a presença de restaurantes, bancos, agências de correios, lojas variadas, cafés, ou então – através dos terminais urbanos, um localizado no próprio Terminal Rodoviário e outro na Praça Dom Pedro II – seguir viagem até o seu destino final em outros bairros da cidade.

Destaca-se que tudo isso é possível em um raio de menos de um quilômetro.

Ademais, o percurso é realizado por vias classificadas, segundo o diagnóstico do Plano Diretor de Mobilidade Urbana-PDMU, como de fluxo livre e estável,  sem causar transtornos no tráfego. Portanto este sistema composto pela rodoviária atual, sua localização, o trajeto dos ônibus e suas paradas, tem funcionado muito bem, de maneira adequada.

Imagem 1: Percurso dos ônibus intermunicipais e entorno

novo rodoviária
Fonte: Mapear Indaiatuba, 2017. Google Earth, 2017. (elaborado pela autora).

Imagem 2: Trânsito – Nível de serviço de tráfego


Fonte: Apresentação do Plano Diretor de Mobilidade Urbana de Indaiatuba, 2016.

O novo prédio da rodoviária localiza-se no final da Rua dos Indaiás, às margens da Rodovia Santos Dumont (SP-075), no bairro Jd. Belo Horizonte. O bairro dista do Centro do município aproximadamente 3 km e, atualmente, a Rua dos Indaiás, via estreita de mão de dupla, possui nível de serviço de tráfego próximo ao instável, categoria mais preocupante em Indaiatuba, segundo o diagnóstico do PDMU e apresentado na Imagem 2.

Não foi apresentado o projeto urbano propriamente dito do Terminal, onde deveriam constar as soluções dos acessos viários dos ônibus intermunicipais ao local, seus trajetos e paradas e as soluções das opções de deslocamentos dos viajantes para o restante da cidade, já que, ao chegar em Indaiatuba, o destino final do indivíduo não é o Terminal e sim sua residência, a residência de parentes, locais de trabalho, de compras e lazer, entre outros.

A não ser que more no bairro ao lado, a pessoa necessariamente deverá se deslocar dali por algum modo motorizado, seja através do transporte coletivo ou particular, já que de um lado está a rodovia estadual e de outro um bairro residencial.

Outro importante ponto de análise é a alça de acesso da rodovia à este trecho urbano onde se localiza a nova rodoviária Trata-se de um trecho caracterizado  como muito inseguro e intenso em horários de pico,  inclusive local de constantes manchetes na mídia, que apontam consecutivos acidentes de trânsito, inclusive com óbito.

Imagem 3: Nova rodoviária e seu entorno


Fonte: Mapear Indaiatuba, 2017. Google Earth, 2017. (elaborado pela autora).

Além de todos esses dados e análises,  um dos itens mais preocupantes em relação à questão urbana e ao planejamento urbano, é que não foram apresentados estudos de viabilidade nem qualquer outro estudo técnico que justifique, embase e estruture a proposta de mudança de localização do Terminal Rodoviário.

Do ponto de vista urbanístico, para um empreendimento desta natureza (que envolve os maiores fluxos de deslocamentos e movimentações de pessoas e veículos de um município) e com este porte (edifício localizado em terreno com mais de 25.000m²) com nova proposta de localização, deveria ser elaborado, no mínimo, Estudo de Impacto de Vizinhança-EIV e Relatório de Impacto no Trânsito-RIT, diagnosticando os problemas existentes no local, antes de sua implantação, e suas possíveis soluções, os impactos que serão gerados com rodoviária ativada para o uso e propostas de medidas compensatórias desses impactos causados tanto no trânsito (com soluções de alças de acessos, melhoramento das vias do entorno, etc) como na vizinhança (problemas de trânsito e ruídos causados pela rodoviária em funcionamento).

E mais do que isso, antes de qualquer proposta de mudança de localização do Terminal Rodoviário deveria ter sido produzido um relatório comprovando a necessidade técnica e a viabilidade econômica e urbanística desta alteração, incluindo ainda pesquisa com os usuários do equipamento.

Portanto, com as reflexões apresentadas em relação à mudança do Terminal Rodoviário, podemos concluir que a descentralização proposta pelo governo de um dos equipamentos de mobilidade urbana mais importantes de uma cidade contrapõe pressupostos de um planejamento urbano adequado e otimizado, causando deliberadamente a desconexão deste com a cidade, necessidade de mudanças de rotas do transporte público municipal o que causará impactos no orçamento, e ainda outras demandas que surgirão por não terem sido planejadas as soluções do entorno, como os acessos, as alças, melhoria das vias, entre outras adaptações que com certeza deverão ser executadas para o pleno e adequado funcionamento deste equipamento.

Links consultados:

http://www.indaiatuba.sp.gov.br/relacoes-institucionais/imprensa/noticias/23931/

http://www.indaiatuba.sp.gov.br/relacoes-institucionais/imprensa/noticias/24460/

http://www.indaiatuba.sp.gov.br/relacoes-institucionais/imprensa/noticias/24545/

http://www.indaiatuba.sp.gov.br/relacoes-institucionais/imprensa/noticias/24763/

http://www.indaiatuba.sp.gov.br/relacoes-institucionais/imprensa/noticias/25086/

Ao utilizar este texto como fonte, cite-o corretamente:

WOLF. Mônica M. Kanematusu. Os impactos da localização da nova rodoviária de Indaiatuba – Indaiatuba (SP), 2017. Disponível em www.mapaearindaiatuba.com.br. Consultado em (citar a data).

Revisado por Eliana Belo Silva – Maio de 2017

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