Pesquisador analisa questões ambientais em Indaiatuba

Doutorando em Manaus, Layon Oreste Demarchi, que fez o ensino médio na E.E. Hélio Cerqueira Leite, conta como se interessou pelo Meio Ambiente a ponto de elaborar tese sobre floresta ribeirinha em Indaiatuba. Entre outras análises, o indaiatubano aponta a necessidade de políticas públicas pra recuperar a vegetação no entorno do Córrego do Buru.

Link para Localização da Área no Aplicativo Google Earth:

https://drive.google.com/file/d/1ImLU6u2h1EIcaDEqVwM4JSpeIIOCU_Bk/view?usp=sharing

Mapear Indaiatuba:  Primeiramente, muito obrigado em conceder esta entrevista. Gostaríamos de iniciar pedindo para que nos conte sobre sua formação como Ecólogo, o dia a dia de um ambientalista e sobre suas pesquisas atuais.

Layon: Eu é que agradeço a oportunidade de ter este bate papo com vocês e poder ajudar em algo. Sobre minha formação, desde o ensino médio, na escola Hélio Cerqueira Leite, sempre tive muito interesse no mundo natural, desde as pescarias na cidade, as andanças de bicicleta até o “Quilombo”, o cultivo de plantas em casa e diversas outras atividades do dia-a-dia. Com o fim do ensino médio, me deparei com duas opções, a primeira era achar um emprego para ajudar meus pais nas contas e pagar as biritas de fim de semana, já a segunda, fazer cursinho e me matar de estudar para tentar sanar meus déficits de aprendizado e pleitear uma vaga em uma universidade pública, afinal, as particulares estavam fora de meu orçamento. Por sorte escolhi a segunda e em um guia de estudantes achei o curso de Ecologia da Unesp Rio Claro. A grade de disciplinas do curso era ótima, multidisciplinar e cheia de atividades de campo. Nem tentei outros cursos e na segunda tentativa consegui passar. Foi assim que deixei Indaiatuba, fui morar em Rio Claro e um universo de possibilidades me abriu a cabeça, não só com as disciplinas que envolviam desde matemática, biologia, geografia a até ciências humanas, mas também com as saídas de campo (Pantanal, Ilha do Cardoso), com o convívio com as pessoas, morar em república, as festas, congressos e outras coisas que ajudaram a me formar como pessoa e como profissional. Após me formar, cheio de ideias e de vontade de por a mão na massa, resolvi tomar novos ares e foi assim que em 2012 vim parar em Manaus, uma metrópole no meio da Amazônia, onde fiz mestrado e recentemente iniciei o Doutorado em Botânica no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA.

Agora, quanto ao dia-a-dia, creio que os estudos que desenvolvemos no meio acadêmico podem vir a ajudar os ambientalistas e também os governantes (pelo menos na teoria). Neste sentido, não me vejo apenas como ambientalista atuando diretamente na proteção do meio ambiente, como as pessoas envolvidas em ONGs e tantas outras iniciativas. Mas me vejo ambientalista nos pequenos atos, como reciclar o lixo, ter uma pequena composteira em casa, consumir menos, prezando o que realmente é necessário e produtos menos nocivos em sua cadeia produtiva, além de outras pequenas iniciativas, onde sinto que podemos tornar o lugar que vivemos minimamente melhor.

 

Mapear Indaiatuba:  Em 2010, você realizou um estudo em Indaiatuba, sobre nossa vegetação nativa, pesquisando fragmentos de matas na região do córrego do Burú, e ao que sabemos este trabalho é único no município. Você poderia falar de como é feito e qual a finalidade de um estudo FITOSSOCIOLÓGICO?

Layon: Um estudo fitossociológico serve para caracterizar a vegetação analisada, no sentido de saber quais espécies estão lá, de qual formação florestal (Mata Atlântica, Cerrado…) aquelas espécies pertencem e saber quais espécies estão dominando. Com estas informações podemos também saber a “saúde” daquela mata ou fragmento, por exemplo, se tivermos um fragmento dominado por lianas (trepadeiras) pode-se esperar que ele sofreu algum tipo de perturbação, ou por fogo ou desmatamento…

Na parte prática de como fazer um estudo fitossociológico, existem algumas metodologias, eu usei a mais comum em meu trabalho, que consiste em demarcar parcelas de um determinado tamanho (no caso 10 X 10 m), escolher qual será seu foco de estudo (no meu caso árvores que à altura do peito – 1,3 m), que tenham o tronco com a circunferência maior que 5 cm e dentro destas métricas marcar, medir a circunferência do tronco, à altura e coletar um ramo da árvore (de preferência com flor ou fruto) para, em seguida, em um herbário (local onde se armazena amostras botânicas de diversos lugares) identificar aquela espécie. Com estas informações é possível calcular alguns índices que, por exemplo, resultem em um ranking das espécies de acordo com seu grau de importância para aquela mata ou fragmento. Estes índices quando associados a outras variáveis, também permitem entender as relações das espécies com o solo, com os rios e outros fatores que influenciam na vegetação.

Mapear Indaiatuba:  Em seu estudo de uma mata ciliar no córrego do Bur, você analisou 717 árvores, identificando 126 diferentes espécies. Com base em sua experiência e conhecimento, conseguiria avaliar a biodiversidade de nossas matas em Indaiatuba? Quantas diferentes espécies arbóreas nativas poderíamos encontrar na nossa região?

Layon: Avaliar precisamente o número de espécies arbóreas no município é difícil, em função que temos diferentes tipos de vegetações em diferentes estágios de conservação em Indaiatuba. Por exemplo, na região próxima ao aeroporto e outras partes do município, temos fragmentos de Cerrado com espécies e também o porte da vegetação totalmente diferentes das formações de Mata Atlântica da cidade (Floresta Estacional Semidecidual). As matas da região onde o Rio Jundiaí corta a cidade são muito diferentes das outras matas que ocorrem no município; nesta região onde cruza a estrada da ecologia (o google mapas mostra esta estrada) as matas possuem muitos afloramentos rochosos, onde podemos encontrar cactos, como o mandacaru (Cereus sp.) e o xique-xique (Pilosocereus sp.), típicos da Caatinga nordestina, além de outras espécies associadas a estas rochas. Vale muito a pena passear por esta estrada, além das plantas é possível encontrar muitas aves e com sorte ver cutias, quatis e outros animais.

Uma ferramenta interessante sobre a flora do Brasil é o site “Flora do Brasil 2020” (veja em http://reflora.jbrj.gov.br/), site desenvolvido por pesquisadores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro com colaboração de pesquisadores do Brasil inteiro, que tenta reunir o máximo de informações possível sobre nossa flora, com mapas de distribuição, fotografias, descrições, status de conservação e muito mais. Em uma simples busca neste site constando o número de espécies arbóreas ocorrentes nas Florestas Estacionais Semideciduais (principal formação florestal de Indaiatuba) do estado de São Paulo encontramos 673 espécies arbóreas de 96 diferentes famílias, e se procurarmos não só árvores como também ervas, arbustos e trepadeiras, este número chega a quase 2000 espécies. É claro que este número leva em conta o estado inteiro e Indaiatuba deve ter bem menos espécies que isso, mas já dá uma ideia do quão rica é a nossa flora regional.

 

Mapear Indaiatuba:  Estas espécies de árvores possuem algum grau de dependência com os animais silvestres que habitam estas matas, que indicasse a necessidade de protegê-los?

Layon: Com certeza, as plantas e os animais estão conectados de diversas formas, uma destas formas, que é um processo ecológico importantíssimo na manutenção das florestas, é a dispersão. De forma simplificada, podemos dizer que dispersão nada mais é que a forma como as árvores “espalham” seus descendentes (sementes) na paisagem. A dispersão pode ocorrer de diversas maneiras, as duas principais formas que podemos encontrar nas matas do estado são a anemocoria quando ela é feita pelo vento (como exemplo, as sementes dos ipês) e a zoocoria quando é feita por animais. Nas florestas tropicais como a Mata Atlântica estima-se que 60 a 90% das espécies de plantas dependam de animais para sua dispersão (espécies zoocóricas). Então quando deixamos de ter os animais dispersores de determinadas espécies, este processo ecológico tão importante pode se perder, prejudicando assim a população destas plantas. O que acontece nas matas de nossa cidade e na maioria dos fragmentos do estado é que algumas espécies de plantas possuem frutos grandes, e consequentemente dependem de grandes animais para dispersá-las (como, por exemplo, a anta (Tapirus terrestris) e alguns macacos que comem frutas como o muriqui (Brachyteles arachnoides) e aves como o jacu (Penelope sp.) e a jacutinga (Aburria jacutinga)). Assim, na maioria dos pequenos fragmentos, estes animais estão ausentes e as espécies de plantas que dependem deles tem sua dispersão prejudicada, o que com o passar do tempo pode resultar em extinções locais de espécies.

Outro processo chave que está muito ameaçado nos dias de hoje é a polinização, sem a polinização não ocorre o transporte de pólen de uma planta para outra, com isso a reprodução não ocorre. Um dos principais grupos responsáveis pela polinização são os insetos, e atualmente ocorre um grande debate sobre a mortalidade de insetos (principalmente abelhas) por conta do uso exagerado de agrotóxicos e produção de alimentos transgênicos. Esta perda de polinizadores, como se pode esperar, causa sérias consequências ambientais e também econômicas, e diria que esta realidade muito provavelmente também ocorre em Indaiatuba.

Para saber mais:

http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2008/08/30/ausencia-de-dispersores-de-sementes-ameaca-palmeiras/

http://www.redebrasilatual.com.br/ambiente/2017/03/mortandade-de-abelhas-por-agrotoxicos-poe-em-risco-producao-de-alimentos

 

Mapear Indaiatuba:  Muito do que restou de nossas matas nativas,  se encontra sob algum grau de degradação, muitas vezes  alteradas por ação humana. Existe algum processo natural de recomposição utilizado pelas matas? Como seria este processo de resiliência, de voltar a uma condição equilibrada, e quando é necessário que o homem interfira para recompor uma mata?

Layon: As florestas possuem mecanismos de se recuperar, porém, isso depende de diversos fatores, como por exemplo, o tamanho e formato do fragmento, qual tipo de perturbação ocorreu (fogo, corte de madeira seletivo, invasão de espécies exóticas), o histórico e a frequência de perturbações nesta mata, a presença ou não de animais dispersores e polinizadores, se o fragmento está isolado ou conectado a outros fragmentos, dentre outros. Estas e outras características são importantíssimas para determinar se um fragmento pode voltar a uma condição próxima de antes da perturbação. A grande maioria dos fragmentos florestais de Indaiatuba e da região está em péssimas condições, e sem a ajuda do ser humano não conseguem sozinhos retomar uma condição “saudável” para que processos ecológicos retornem ao equilíbrio. Esta realidade pode ser vista no fragmento do Córrego do Buru, onde realizei meu estudo. Lá as repetidas queimadas, que escapavam das plantações de cana ao redor, fizeram com que grande parte das árvores das bordas do fragmento morresse e as trepadeiras dominassem a mata. Esta dominância impede que as espécies arbóreas consigam crescer, com isso o processo de regeneração fica sempre em um estágio inicial. Neste e em muitos outros casos onde os processos ecológicos foram severamente danificados, é necessária à intervenção humana. Existe uma grande diversidade de técnicas e tecnologias de restauração florestal, porém algumas vezes elas são caras e exigem apoio dos governantes e da iniciativa privada. Mas com certeza a recuperação é possível e temos diversos profissionais capacitados para isso.

Para saber mais sobre técnicas de restauração, vale a pena dar uma olhada: https://www.embrapa.br/codigo-florestal/estrategias-e-tecnicas-de-recuperacao

Mapear Indaiatuba:  Estima-se que existam mais de 700 nascentes no município, das quais apenas 112 são Áreas de Preservação Ambiental determinadas por lei municipal. Algumas em algum estágio de degradação, muitas sem proteção de mata ciliar. Existem ações de recuperação possíveis de se aplicar? Quais seriam os passos para se recuperar uma nascente ou uma Mata Ciliar?   

Layon: O primeiro passo é a conscientização sobre a importância das áreas verdes e das nascentes, além do cumprimento de nossas leis ambientais, para só então pensarmos em formas de recuperação. A forma mais fácil de recuperar uma nascente é recuperar a vegetação de entorno. Como dito acima, existem diversas técnicas de recuperação florestal, qual técnica utilizar depende da situação que a área da nascente se encontra. A primeira ação a ser feita é interromper a perturbação que ocorre na área, e a forma mais simples para isso é cercar, protegendo-a de pastejo e do pisoteamento do gado, por exemplo. Após isolar a área é preciso verificar se a mata consegue se recuperar sozinha ou necessita de intervenção humana. Normalmente as áreas de nascente sem cobertura florestal e isoladas de outras matas necessitam de manejo, como o plantio de mudas, adubação, descompactação e correção do solo, além de controle de espécies indesejáveis que impedem o crescimento das mudas, como por exemplo, a braquiária. Porém, se a nascente já possuir alguma cobertura florestal e for próxima de fragmentos florestais, o simples isolamento da área já é suficiente para sua auto recuperação.

Atualmente acredito que vivemos uma situação onde a ação do ser humano está tornando a água potável escassa e esta escassez já é motivo de conflito entre países em regiões áridas do mundo. Como todos nós lembramos, São Paulo entre os anos de 2014-2015, em um período de El Niño forte, passou por um momento crítico, onde quase todos os reservatórios do estado chegaram ao seu volume morto. Após esta crise, eu que sou otimista, pensei que o governo investiria na raiz do problema da crise hídrica, gerando programas estaduais efetivos de recuperação de nascentes, investindo na recuperação e despoluição das bacias hidrográficas, desenvolvendo tecnologias de reuso e estocagem de água, controlando a ocupação desordenada de nossos mananciais, melhorando as leis de proteção ambiental, dentre inúmeras outras ações. Porém, contrariando todas as recomendações de inúmeros pesquisadores e técnicos, a maioria das ações do governo do estado foi de curto prazo e sem grande alcance. Mesmo longe de achar uma resolução para a crise hídrica, a incompetência foi homenageada com um prémio de gestão hídrica ao governador. Por estes motivos, acredito que a crise hídrica é e será uma realidade constante do estado de São Paulo e de grande parte do Brasil.

Mas ainda há esperança. Existem exemplos interessantíssimos de revitalização de nossas nascentes, como o projeto que vem sendo desenvolvido por ambientalistas, prefeitura, Ongs e produtores rurais na cidade de Extrema – MG, que já ganhou até um prêmio internacional. Sem me alongar mais, deixo o link de uma reportagem sobre este projeto que vale muito a pena ver: https://www.youtube.com/watch?v=liMykOALfxU

 

Mapear Indaiatuba:  Agradecemos muito a atenção concedida, dando um tempinho na sua vida de pesquisador,  para responder nossas perguntas de maneira tão atenciosa, e aproveitamos  para pedir sua permissão para disponibilizarmos o link para Download de seu trabalho completo. Um grande abraço da Equipe do Mapear Indaiatuba.

Layon: Eu é que agradeço, deixo aqui um grande abraço a vocês, fico muito feliz que Indaiatuba conte com iniciativas tão interessantes e multidisciplinares como o Mapear, qualquer dúvida é possível entrar em contato pelo e-mail: layon_lod@yahoo.com.br

Link: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/118862

– Florística e fitossociologia da comunidade arbustivo arbórea em um trecho de Floresta Estacional Semidecidual ribeirinha no município de Indaiatuba, SP.

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