Carta aberta ao político de Indaiatuba

Analisando com profundidade os diagnósticos do Novo Plano Diretor de Mobilidade Urbana, que corrobora com outros Planos Municipais, além das projeções regionais disponíveis, fiquei muito espantado com a velocidade com a qual as mudanças no crescimento da população da cidade estão ocorrendo, onde as taxas muito baixas de crescimento e de natalidade, junto com o aumento da expectativa de vida, já estão proporcionando alterações nas características de nossa população. Ilustrando a afirmação: nos próximos 10 anos teremos menos 1000 jovens em idade escolar, e mais 13.000 pessoas acima de 60 anos, ou seja, a população envelhecerá, seguindo uma tendência que já é escancaradamente visível no hemisfério norte, principalmente na Europa. Teremos uma impactante alteração das características da população e de suas necessidades, incluindo o mercado de consumo e por consequência, na economia.

Consequentemente, mudará também o público alvo dos empreendimentos imobiliários, e acho que isso você já deveria estar sentindo: será o fim da indústria imobiliária, da forma com conhecemos hoje, motor principal do crescimento da cidade. É hora de parar de pensar a cidade como um local apenas para vender lotes, e começar a pensar, e por consequência, planejar as outras necessidades do cidadão, inclusive viabilizando custos menores e mais sustentáveis para a gestão pública.

Além de chamar atenção sobre o envelhecimento da população te escrevo também para denunciar parte da legislação municipal que NÃO É SUSTENTÁVEL, e que tem gerado mais problemas que soluções. Você tem a opção de alterá-las – como homem público que diz ser – e dessa forma, incentivar a consolidação de uma nova etapa econômica que vem aí, caso realmente consigamos sair da crise que se agravou a partir de 2015, focando em ações de incentivos concretos para geração de empregos e aumento da renda. É necessário diminuir as dificuldades, que parecem ajudar algumas poucas empresas na cidade e atrapalhar um mar de empreendedores.

Não vou me estender, por exemplo, em falar sobre o Plano Diretor, que precisa ser revisto com urgência, pois já aparecem problemas em adquirir sustentabilidade econômica para manter a infraestrutura de todas as áreas urbanizadas e de expansão urbana existentes. Não digo simplesmente água, luz e esgoto, falo em transporte coletivo e sustentável; áreas de geração de emprego em proximidade, áreas de atividades terciárias em proximidade a moradia, acesso às escolas (que serão pouquíssimas a serem construídas nas próximas décadas), o lazer urbano em proximidade e não em acesso somente por automóvel particular, como se tem apresentado nos últimos projetos; e sobretudo a cidade verdadeiramente acessível pensada para o idoso. Hoje, caminhamos para um erro crasso, planejando à escala e velocidade de nosso crescimento passado, o que vai sair bem caro para a manutenção da cidade.

Quanto à Mobilidade Urbana, também não vou me estender em dizer que com o uso de mais de 50% de nossas viagens no município em automóveis particulares, não haverá futuro, pois não há exemplo no mundo, de uma cidade sequer que se manteve com estas taxas de divisão modal sem entrar em colapso de seu sistema viário. Para isso, ao seu tempo, pode-se conversar sobre projetos direcionados ao transporte sustentável como condição sine qua non ao desenvolvimento urbano…

Quero também apontar pequenas legislações que vieram ao longo dos últimos anos sutilmente inviabilizar grandes áreas urbanas, no sentido de impedir categorias de uso residenciais de médio e grande porte. Como por exemplo, a lei das 02 vagas de auto por unidade, que somente permite a construção de prédios para população de alta renda em áreas com boa infraestrutura instalada, e acaba por viabilizar apenas empreendimentos populares em áreas mais distantes e que geram mais problemas para serem resolvidos. Em opção a isso, peço que observe a criação de uma lei que regulamente “Polos Geradores de Tráfego”, determinando quantidades de vagas de estacionamento, de acordo com o empreendimento, e a proximidade de terminais de transporte coletivo e acesso a transporte sustentável, entendendo cada necessidade, de maneira diferente. Temos que refletir e conversar a respeito…
Lembro você, político, que na cidade, hoje, estima-se a existência de cerca de 7.000 domicílios desocupados, pouco menos de 10% do total existente, resultado de uma população que abandonou a cidade estruturada, para se mudar para áreas novas, com menos infraestrutura, e que subutilizam os equipamentos públicos deixados para trás, gerando, ao mesmo tempo, enorme necessidade de transporte urbano para fazer todas as suas necessidades. O problema da perda de densidade na área urbanizada é sério, mas a solução é simples…

Gostaria também de observar com atenção as opções do novo Plano de Mobilidade, para nosso Centro e as centralidades dos bairros, as maiores geradoras de emprego por área de toda a cidade, e que perdem postos a cada dia. No plano, propostas incríveis e que precisam somente de atitude para sua efetivação: Rótula do Centro, Calçadão, passeios acessíveis padronizados, malha viária de bicicletas sem ladeiras, bicicletas dentro dos ônibus coletivos… Mas o que fazer agora, para atender as demandas em futuro próximo?

Nem vou falar neste momento do meio ambiente… !

Quero somente te chamar a atenção, político, você que sempre diz que eu reclamo e não proponho. Nas estrelinhas desse meu manifesto, com certeza você tem a competência de ter conseguido observar propostas sustentáveis que deveríamos tomar; caso contrário, você é apenas um “político” e não “um homem público”.
Um abraço.

Texto: Charles Fernandes – Arquiteto Urbanista
Revisado por Eliana Belo Silva – Fevereiro de 2018.

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